Retropia

Gilberto Santiago

Há um fenômeno importante, pelo menos no mundo ocidental.  É a retropia, uma fantasia que não se atém a um futuro almejado, mas sim a um passado idealizado, reduto dos saudosistas e dos que ignoram a dura realidade, desconsiderando as novas circunstâncias que passam a reger todos os passos de nossas vidas.  É um apego anacrônico, eis que transfere para o presente valores do passado que não podem mais subsistir em um mundo em plena evolução.

Em recente artigo, Fernando Gabeira ressalta o termo e suas interações.   Suas palavras: “o diálogo com um idealista retrópico é muito difícil pois tende a considerar qualquer argumento, mesmo o mais racional e objetivo, como uma submissão, desconfiado do que lhe pareça o vazio medíocre da ausência de uma utopia.  Olho tudo isso com tranquilidade, pois conheço muita gente fixada em certos períodos do passado”. E conclui: “quando se tem a pretensão de governar comportamentos, fica impossível encontrar um modus vivendi. Grupos e mentalidades muito fechadas tendem a considerar as críticas como um esforço conspiratório”.

Nem utopias, nem retropias. Os fatos e as novas circunstâncias, com o correr dos tempos, se impõem como fonte de reflexão sobre as nossas convicções. Quando, nos momentos difíceis, tivermos que tomar decisões que possam alterar nossas vidas (e, por vezes, o destino dos outros), iremos certamente confrontar o que podemos mudar e o que nos obriga a aceitar, dentro da realidade que nos cerca.

Com sabedoria e bom senso para perceber a diferença.